Ouvir alguém dizer que é perfeccionista me dá arrepios. Pior ainda é quando a pessoa vem com essa: "Meu pior defeito é ser perfeccionista", sem conseguir esconder o orgulho que transborda de suas palavras.
Ao longo do tempo, venho aprendendo a manter uma distância segura desse tipo obsessivo. Mas recentemente me vi às voltas com algumas características notadamente perfeccionistas no meu filho de seis anos. E isso me preocupa bastante.
Embora aterrorize quem está à sua volta, o perfeccionista é a maior vítima de sua própria patologia. Ao perseguir padrões que só ele mesmo alimenta, acaba sempre derrotado e frustrado. Em busca do ótimo inalcançável, não consegue atingir o que talvez seja o pior inimigo daquele, o bom, e assim passa a vida sem aproveitar sua graça imperfeita. Incapaz de lidar com seus erros, pune-se de formas variadas.
Felizmente, a ciência tem se dedicado a estudar o perfeccionismo, alertando inclusive para associação com outros males, como depressão e anorexia. Especialistas americanos dividem os perfeccionistas em três grupos: os que lutam o tempo todo para atender seus padrões elevados e sofrem com a autocrítica; os que esperam a perfeição das outras pessoas e costumam levar seus relacionamentos ao esgotamento; e os que querem estar à altura do ideal que, de alguma forma, convenceram os outros a esperar deles.
O problema é que, na contramão dos alertas de médicos e outros especialistas, a sociedade contemporânea valoriza e reforça características perfeccionistas, gerando doentes orgulhosos do mal que os aflige.
Parte disso, acredito, deve-se ao fato de que se tem levado para o plano individual e para o cotidiano muitos elementos do mundo das empresas, como os programas de qualidade total e as metas de desempenho. Esqueceram de dizer aos desavisados, porém, que a vida é muito mais complexa do que qualquer linha de produção e que levar à perfeição corpos, filhos, relacionamentos, casas, jantares etc., além de sua própria profissão, é muito mais difícil do que fabricar produtos que, longe de perfeitos, apenas atendem configurações preexistentes - sem exagerar nos custos, é claro.
A cultura da perfeição se espalha de tal forma que às vezes fica difícil explicar que aceitar o erro não faz de você um cúmplice do trabalho malfeito ou um pregador da bagunça desenfreada.
A receita popular para combater o perfeccionismo é de difícil aplicação por quem sofre com ele: simplesmente relaxar. Para quem ainda não caiu nessa, talvez haja um antídoto a ser aplicado desde criança: a ideia de que a satisfação pode vir da feliz e oportuna combinação de pequenas imperfeições.
Nenhum comentário:
Postar um comentário