
Estão convocados os 150 milhões de técnicos de futebol do país que, em época de Copa do Mundo, se dedicam quase integralmente à Seleção Brasileira. Da população, só ficam de fora mesmo dessa conta as crianças de até quatro anos, aqueles e aquelas que não sabem o que é um impedimento, os que não estão nem aí e, é claro, os chatos de plantão.
Ao chamar os 23 jogadores que vai levar para a Africa do Sul, o técnico Dunga dá início, na prática, à Copa do Mundo para os brasileiros e traz para o debate o treinador anônimo. Nos próximos dois meses, esse será o tema dominante, no bar e no almoço de domingo em família.
A figura do treinador anônimo foi eternizada por Jô Soares com o personagem Zé da Galera. Na Copa de 1982, ele ligava do orelhão para o treinador Telê Santana para pedir que a Seleção jogasse com um ponta direita. "Bota ponta, Telê!", repetia o Zé da Galera, quase sempre em desespero. E Telê, embora entrasse em campo com um ponta esquerda típico, não fazia o mesmo pelo lado direito, numa época em que os pontas já desapareciam.
Nos últimos dias, talvez o Zé da Galera tivesse ligado centenas de vezes para o Dunga, do celular pré-pago, para pedir: "Chama o Neymar, Dunga". Técnico da Seleção recebe mais pedidos que cantor de churrascaria. É normal. Os técnicos anônimos querem participar e o futebol perderia a graça se não fosse assim.
De minha parte, fico no muro, acho que Dunga teve erros e acertos na sua convocação. O principal acerto foi barrar Adriano, um jogador em claro declínio e problemas emocionais que interferem no seu desempenho em campo. Precisou de certa coragem para isso, já que Adriano foi chamado várias vezes e coerência é palavra-chave no discurso do treinador. Sobre os que ficaram de fora, é possível entender o pensamento de Dunga.
O técnico da Seleção que, em entrevista ontem, se definiu como comandante, destacou nos convocados valores como comprometimento e patriotismo, além do trabalho de longo prazo, "tijolo por tijolo". O talento que surpreende, que mexe com as convicções, que não se encaixa no que foi planejado, não tem espaço na lógica um tanto militar de Dunga. O risco que o técnico corre é ser prisioneiro de sua coerência, quase teimosia, e ficar sem jogadores criativos na hora que precisar, principalmente tendo em vista os problemas que Kaká vem enfrentando.
E você, o que achou? Dunga ouviu seus conselhos?
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