
Vim para São Paulo em 1986, com 17 para 18 anos. Estava na cidade havia dois ou três meses quando entrei numa pequena livraria em frente ao Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro, pertinho da avenida Paulista, e comprei A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade. Tenho o livro até hoje e volto a ele com alguma frequência. Recordei tudo isso ao ser lembrado por uma matéria de jornal que, em 2012, celebraremos os 110 anos de nascimento e os 25 anos de morte do poeta mineiro.
Dos poemas de A Rosa do Povo, alguns são mais especiais que outros e nenhum ocupa hoje um lugar tão importante como "Procura da Poesia". Ali, Drummond ensina: "Penetra surdamente no reino das palavras./Lá estão os poemas que esperam ser escritos./Estão paralisados, mas não há desespero,/há calma e frescura na superfície intata".
Não me lembro de ter sido tocado por esse poema quando tinha 17 para 18 anos. Olhando pelo retrovisor, vejo que era a flor, que "furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio", de leitura aparentemente mais simples, que me seduzia. Quando se está ansioso por anunciar o que se pensa e sente, só importa nos outros o que pensam e seus sentimentos explícitos. É difícil entender que "isso ainda não é poesia". Com o tempo, "Procura da Poesia" foi se materializando como referência, espécie de filosofia de vida, traduzindo com perfeição, mesmo que acidental, a necessidade de busca pelo essencial. "Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam./ Espera que cada um se realize e consume/com seu poder de palavra", diz o mineiro, referindo-se aos "poemas que esperam ser escritos".
Passados 25 anos, nunca tive e ainda não tenho a chave de que fala Drummond. Por isso, preciso desde sempre voltar e voltar aos que, como ele, traçaram rotas. Na transição da adolescência para a vida a adulta , "Consolo na Praia" era apaziguador, mais pela desilusão compartilhada do que pela conselho da experiência, sintetizado nos últimos versos, que agora valorizo: "Tudo somado, devias/precipitar-te, de vez, nas águas./ Estás nu na areia, no vento.../Dorme, meu filho".
"Se de tudo fica um pouco, mas por que não ficaria um pouco de mim?", pergunta Drummond. Não sei se importaria a ele saber, mas neste leitor certamente muito ficou e se renova.
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