
Vale a pena ler este texto sempre atual....numa época em todos parecem soterrados em informação, estímulos, exigências, pressão etc etc
Estava no trânsito quando liguei o rádio e peguei, já em andamento, a entrevista de uma monja da tradição zen budista à rádio CBN. A monja Coen falava ao programa "Caminhos Alternativos", que vai ao ar todos os sábados, e a repórter lhe pediu uma solução para a insatisfação crescente que verificava entre as pessoas que conhecia.
"É um vício", respondeu a monja. "Nós estamos ficando viciados em ser críticos e reclamões. Somos grandes resmungões e grandes resmungonas." Visto desse ponto de visto, o mau humor cada vez maior com tudo e com todos, inclusive com nós mesmos, ganha outro significado. Vai muito além de uma saudável e necessária postura crítica frente à realidade. Vai muito além do desejo natural de que as coisas melhorem.
Nada é bom o suficiente na comparação com a terra prometida da perfeição: o trabalho perfeito, o casamento perfeito, o trânsito perfeito, o churrasco perfeito, o sexo perfeito, os filhos perfeitos e assim por diante.
Daí o antídoto sugerido pela monja: "Apreciar sua vida, que está onde você está, e não aonde você quer chegar".
Muitos veem nesse tipo de preceito do budismo (para mim, mais filosofia do que religião) o defeito da resignação. Não entendo que seja assim. A resignação é uma atitude absolutamente passiva, de desistência diante das adversidades. Não se trata disso.
O que se propõe é uma mudança de postura, de forma ativa, em relação à vida como um todo e ao dia a dia. Aceitar as coisas como elas são não significa renunciar aos esforços de melhoria, mas estabelecer o patamar a partir do qual se pode avançar. Do mesmo modo, aceitar um golpe do destino permite se desprender do passado e ter liberdade para tocar a vida em frente.
A reclamação, essa sim, geralmente é passiva. Quem reclama expressa o descontentamento e demanda uma ação, mas essa demanda vira um fim em si mesmo, um hábito viciante que não leva a lugar nenhum e até se torna um obstáculo aos passos seguintes rumo à solução.
Talvez você ainda diga: "Quem não chora não mama". Mas, convenhamos, isso só vale mesmo para os bebês, que ainda não aprenderam a lidar com suas carências, sejam elas de que natureza forem.
Por mais paradoxal que possa parecer, acredito que seja preciso largar o vício da insatisfação permanente e viver o presente para poder conseguir algum lugar minimamente satisfatório no futuro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário