quarta-feira, 21 de março de 2012

Como os nossos pais



Nasci em 1968. Lá pelos 14 anos de idade descobri a chamada MPB e os principais personagens do festival tão bem retratado no documentário Uma Noite em 67, que ainda está em cartaz no Rio e em São Paulo, e também já passou por Brasília.

Estão todos lá (ou quase). Chico, Gil, o Veloso, Roberto, Edu, Rita. Faltou Elis, que apareceu apenas em rápidas imagens e foi mencionada por Gil no episódio da polêmica passeata contra as guitarras elétricas. Mas, ao final, já com os créditos rolando, veio a justa homenagem e o público foi deixando o cinema acompanhado de sua voz: "Cantador só sei cantar; ah, eu canto a dor, canto a vida e a morte, canto o amor". Até Tom, espécie de tio dessa garotada, foi citado em alguma passagem.

Após o filme, uma ideia me perseguiu: a maior parte das coisas que aprendi nos discos veio desse pessoal, ouvindo seus LPs numa época em que eles já tinham a idade do meu pai. Para minha geração, sem muitas referências ao alcance da mão, que viveu a década perdida dos anos de 1980 e a frustração das Diretas Já que viraram Sarney Lá, a mensagem política daquelas músicas despertava a nostalgia pelo que não se viveu.

E a coisa não para por aí: as canções daqueles anos 1960 ofereciam a possibilidade de viver a fantasia inalcançável da rebeldia sem-lenço-sem-documento e a aproximação com uma multiplicidade de visões sobre amor, saudade, paixões arrebatadoras, ciúme e até mesmo sexo. Fomos apresentados às mulheres que rejeitavam o exemplo daquelas de Atenas. E aprendemos, veja só, como falar com Deus.

Sem contar que muito da identidade com um Brasil que ia além das capitais e do litoral foi possível principalmente graças às músicas dos artistas que dão o show no filme de Renato Terra e Ricardo Calil.

Como qualquer relação desse tipo, esta também não é marcada só pela admiração. A adolescência passa e é natural que venha um certo distanciamento, críticas e, pior ainda, uma boa dose de condescendência. Fica, porém, a lembrança de quando o que esses caras diziam fazia muita diferença.

É essa lembrança que sobe à tona em momentos como o que vivi ao assistir Uma Noite em 67, permitindo que os ídolos do passado ocupem o lugar que merecem no meu próprio filme.

Texto publicado na minha coluna no Destak, em 25/8.

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