
Sou noveleiro assumido. Não é de hoje. Quando criança, já corria para a sala do apartamento para deitar no chão, diante da TV e, junto com a família, assistir à trama que, naquela época, era das 8h da noite. E na condição de fã comemoro alguns fatos importantes da teledramaturgia neste ano: o sucesso da reprise de Vale Tudo no canal Viva, o remake de O Astro, que estreou ontem, e o sucesso de Insensato Coração. Esse é o tipo de novela que mais me empolga, que teve em Janete Clair a grande mestra do gênero e encontra em Gilberto Braga um sucessor à altura.
Para mim, novela tem de ser assim. Tem de ter coisa que só acontece nas novelas. Reviravoltas, filhos que aparecem nos capítulos finais, casamentos improváveis, gente má o tempo todo, gente boa que fica má, gente má que dá uma de boazinha (antes de ser desmascarada), traições, mais mentiras do que verdades, vinganças, revelações que de tão inesperadas deixam o telespectador perplexo com o grau de inventividade do autor. Personagens apaixonantes que às vezes até parecem irreais, mas que quase sempre lembram alguém que você conhece, ou alguém que fazia parte de um caso que alguém que você conhece contou. Histórias capazes de despertar discussões acaloradas sobre até que ponto as semelhanças com a realidade são meras coincidências e que, apesar disso, mantêm o público grudado na telinha.
As novelas que vão na linha "crônica da vida cotidiana", repletas de cenas bucólicas e lições de vida edificantes, não fazem jus ao nome. Podem ter valor, mas não me empolgam e, por isso mesmo, acho que não devem ser associadas à melhor tradição dos folhetins. Acredito que temas que mexem com as pessoas e geram debate devem estar inseridos na trama e não apenas se servir dela para ser desenvolvidos quase como depoimentos de documentários. As novelas, tal como a arte, na definição do escritor Oscar Wilde, são inúteis. A utilidade as mataria de inanição, pois as afastaria do mundo da ficção, essencial ao ser humano desde que o mundo é mundo.
Embora não se deva esperar que as novelas ocupem um lugar que não é delas por natureza, ou seja, o da dramaturgia marcada pela complexidade, sutileza e temas de mais difícil digestão, devo dar aqui um depoimento pessoal: assim como as histórias de Agatha Christie abriram as portas para a literatura, as novelas me atraíram ao universo da dramaturgia, onde encontrei filmes e peças inesquecíveis.
Acho que este texto, publicado há algum tempo no Destak, é muito oportuno diante da estreia de Avenida Brasil, esta semana.
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