terça-feira, 27 de março de 2012

Viagem no tempo com Chico


"Ele tá velho". Foi meu primeiro pensamento assim que as luzes do palco se acenderam. Talvez fosse influência da música: "Hoje é dia de visita, vem aí meu grande amor, hoje não deram almoço, né?, acho que o moço até nem me lavou", cantava Chico no início de seu show, atualmente em cartaz em São Paulo. Não demorou muito, ele confessava que seu tempo é curto e que, avarento, conta seus minutos, "cada segundo que se esvai", na canção que fez para a moça do cabelo cor de abóbora. Também cantou a decrepitude, com um misto de melancolia e ardil, na música "Querido Diário", de seu CD mais recente. Os temas da ação do tempo e das desventuras do envelhecimento estavam lá presentes, de forma indisfarçável.

Apesar disso, a primeira impressão não ficou, nem um pouco. Canção após canção Chico Buarque comprovava seu vigor poético, tanto nas músicas antigas como nas novas. Ouvi críticas de que no show há um excesso de músicas do novo CD, obviamente menos conhecidas. Besteira. Nada, nem mesmo a adoração mais fanática de seu fãs, podem obrigar um artista a ficar encarcerado no passado.

E o que dizer da reação das mulheres, maioria na plateia, à simples presença de Chico no palco, a cada gesto seu? Os gritos de "lindo" se multiplicam e, aparentemente, até deixam o cantor sem graça, a ponto de errar a letra de "Anos Dourados", um de seus maiores sucessos. Uma sintonia com o público feminino, enfim, de causar inveja a muito marmanjo.

Lá pelas tantas, Chico estava cantando um rap, citação do trabalho do cantor paulista Criolo, que fez uma releitura de sua "Cálice". "Pai, afasta de mim a biqueira, afasta de mim as 'biate', afasta de mim a 'cocaine', pois na quebrada escorre sangue", são os versos do rapper que Chico incluiu em sua apresentação. Enquanto isso eu ainda cantarolava alguns dos antigos sucessos do compositor, da época em que fui apresentados a seus LPs (começando por "Meu Caro Amigo"), na casa de um colega de escola cuja família tinha umas ideias meio comunistas, diziam.

Conclusão: velho tô eu; Chico é um rapaz, e chega ao final de seu ótimo show sem lembrar em nada o velho Francisco da canção que abriu a noite. Uma fina ironia ("quem me vê, vê nem bagaço") que só faz o compositor que lida com o tempo com a mesma maestria com que lida com as palavras. E para quem está curioso, Chico completa 68 anos em junho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário