
A poucos dias do Carnaval, uma academia de dança de São Paulo promete fazer qualquer um aprender a sambar "em apenas duas horas". Vou lá, só para dizer que duvido que funcione comigo. Sou um caso perdido.
Dorival Caymmi disse, com seu jeito todo peculiar, que "quem não gosta de samba bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé". Acho que sou um bom sujeito e tão ruim da cabeça quanto a maioria de nós que andamos por aí fora dos hospícios. Minha doença está mesmo nos pés.
A dificuldade começa nos ouvidos. Para mim, é um desafio achar e acompanhar o ritmo. Todos os instrumentos me atraem e, perdido na polifonia, logo estou tentando seguir vários deles. Depois, vem a falta de molejo, que se estende dos ombros aos pés, passando, é claro, pelos quadris. E o pior é que nem posso recorrer à velha e batida defesa da herança genética.
Na verdade, gosto muito de ouvir um bom samba. Como não se render à genialidade de Cartola, Ataulfo ou Paulinho da Viola? Aprecio as letras com soluções poéticas ilusoriamente simples e as melodias que dão vontade de sair dançando. Mas a vontade logo passa diante da falta de habilidade.
Não sou grande fã, porém, do Carnaval, nem mesmo como espectador. Quando criança, era levado às matinês no clube, mas ia com pouco entusiasmo, às vezes até contrariado. Lá pelos dez anos de idade, me rebelei e fui ao cinema assistir a Guerra nas Estrelas (o primeiro) em pleno dia de folia. Desde então, não quis mais saber muito da cabeleira do Zezé.
Hoje acompanho o Carnaval a distância, mas com respeito, principalmente pelas expressões mais tradicionais. Por isso mesmo, fico um tanto indignado quando, nesta época do ano, ouço tratarem a festa como unanimidade nacional, dividindo o país entre uma maioria que cai na folia e algumas aberrações que, talvez, prefiram ir ao cinema.
Até porque não é essa a realidade que observo à minha volta. Basta ver a quantidade de carros que congestionam as estradas, com pessoas à procura de algum descanso no feriado mais longo do ano. Felizmente, também há quem se preocupe em oferecer programas alternativos para quem, em vez de cair na folia, quer mais é fugir da folia. O negócio é preservar a pluralidade, mesmo na festa mais popular do país.
* P.S.: Neste ano, um casal amigo vai nos receber (eu, minha mulher, meu filho e a cachorrinha) em sua casa em Divinópolis, Minas Gerais. Vamos passar o Carnaval mais perto do mato do que da avenida.
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