terça-feira, 27 de março de 2012

Lição de Vinicius

"Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida, emocionalmente despertados pela concentração. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado".

Tire o cigarro de cena e a descrição de Vinicius de Moraes no texto "O exercício da crônica" se mostra tão válido agora como quando foi escrito, no início da década de 1960.

Não pense o leitor que meu objetivo aqui é atrair qualquer sentimento de piedade pelo ofício do "prosador do cotidiano", como define o poeta. Ou, pior, algo que se assemelhe à mistura de piedade e admiração. Isso sim, e não a falta de assunto, seria imperdoável. Quero apenas compartilhar este texto que, ao menos para mim, foi um pequeno, mas precioso, achado. E fazer uma rápida reflexão: Vinícius parece localizar na demanda insaciável dos leitores, que ele chega a chamar de ingratos, a fonte primordial da qual surge a necessidade diária da crônica. Não vejo assim. Guardadas as devidas proporções, e sem esquecer as obrigações de que é feito um jornal diário, acho que aqueles que escrevem regularmente em espaços como este do Destak, também são movidos, a exemplo do que ocorre como romancistas, por necessidades próprias, cuja fonte eles próprios são incapazes de identificar.

Agora, como ninguém é de ferro, reproduzo novamente Vinicius, pedindo, tal como ele no texto, que o leitor se coloque no papel do cronista. "Dias há em que, positivamente, a crônica 'não baixa'. O cronista levanta-se, senta-se, lava as mãos, levanta-se de novo, chega à janela, dá uma telefonada a um amigo, põe um disco na vitrola, relê crônicas passadas em busca de inspiração - e nada. (...) Aí então é que, se ele é cronista mesmo, ele se pega pela gola e diz: 'Vamos, escreve, ó mascarado! Escreve uma crônica sobre esta cadeira que está aí em tua frente! E que ela seja bem-feita e divirta os leitores!' E o negócio sai de qualquer maneira."

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