Junte duas mães ou dois pais de múltiplos (gêmeos, trigêmeos e assim por diante) e um dos assuntos da conversa, será as dezenas de perguntas e comentários que eles ouvem cada vez que saem na rua com seus filhos. A curiosidade é natural, e a maioria das observações é bem-intencionada. A rotina com os bebês é um dos aspectos que mais geram perguntas ("Vocês conseguem dormir?" é um clássico). Mas há também algumas engraçadas ("São todos seus?" é uma delas, bem frequente; ou "são idênticos?", mesmo quando se tratam de meninos e meninas; ou "são do mesmo pai?"; ou ainda "é de verdade ou foi tratamento?", ouvida uma única vez) e outras desagradáveis ("São trigêmeos, mas bem normaizinhos, né?").
Tudo isso faz parte da vida dos pais de múltiplos, que chamam a atenção. O que geralmente incomoda, porém, são as palavras com certo tom de piedade, comiseração - às vezes, não é exagero, quase pesar. "Deus me livre" é uma expressão que esses pais ouvem com regularidade bem maior do que gostariam. "Você deve estar desesperada. Eu já não aguento com um só... Imagino você", diz uma mãe, em solidariedade e alívio. É óbvio que gêmeos ou trigêmeos dão trabalho maior. Mas isso não significa que os pais gostem de ser lembrados disso o tempo todo.
Esses pais não andam por aí arrastando correntes. Muito pelo contrário. As mães não se sentem coitadinhas. E isso ficou evidente na festa para famílias de múltiplos realizada no domingo passado, em São Paulo, pelo Portal Múltiplos. Mais de 80 famílias reunidas para comemorar - e trocar ideias e experiências, é claro. Acima de tudo, celebrar. A imensa maioria dos pais de múltiplos se sente afortunada. Foi o que constatei com os que conheci nesses seis meses, desde que ingressei nesse universo, por conta dos meus trigêmeos (dois meninos e uma menina, bem diferentes fisicamente e de temperamento, todos do mesmo pai e da mesma mãe, e os três muito de verdade).
Por isso, quando encontrar uma família de múltiplos passeando por aí, tente evitar expressões de solidariedade por um infortúnio que muito provavelmente só existe para quem está do lado de fora. Dá trabalho, mas a recompensa é grande: sorrisos multiplicados, alegrias multiplicadas. Experimente, então, um "parabéns".
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