Uma questão tem me atormentado ultimamente: se viver é tão complicado quanto nutricionistas, psicólogos, dermatologistas e alguns outros médicos muitas vezes fazem parecer, como a raça humana chegou até aqui? A quantidade de orientações e recomendações (o que inclui alimentos nem sempre fáceis de achar e produtos de custo pouco acessível) que alguém que acompanha a TV durante um dia recebe é avassaladora. Partem da crença de que é possível alcançar o ideal teórico; são causa e efeito da tendência generalizada de se acreditar que é possível ter controle sobre tudo.
Será que não há mais espaço para o bom senso, para a sabedoria que passa de geração para geração? Acho que o velho "cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém" ainda tem sua validade e se aplica a boa parte das situações às quais os especialistas respondem com uma lista de regras muitas vezes de difícil compreensão.
Um bom exemplo do que digo está no campo da nutrição. Nutricionistas povoam os programas de TV e os noticiários como uma frequência que nos leva a pensar que é impossível viver sem eles. O jornalista americano Michael Pollan teve o mesmo incômodo com a paulatina transformação do ato cotidiano de comer em uma complicada ciência: "Os seres humanos passaram milênios comendo bem e mantendo-se saudáveis antes que a ciência nutricional aparecesse para nos dizer como fazer isso. É possível comer de forma saudável sem saber o que é um antioxidante", diz ele. Pollan escreveu um livro, que chama "Regras da Comida", em que lista uma série de recomendações de sabedoria alimentar que ele próprio resume em três: "Comer comida. Não em excesso. Principalmente vegetais". Algum nutricionista discordaria que a regra do prato colorido (e o que dá variedade de cores são os legumes e verduras) resolve a maior parte dos dilemas de um almoço? Ninguém aqui é contra os avanços da ciência. Seria apologia da ignorância defender que as tradições prevaleçam sobre as descobertas científicas. No entanto, os melhores médicos que conheci dispunham de sólida formação e se mantinham atualizados, mas tinham ao menos uma característica dos antigos doutores que acompanhavam por décadas a mesma família: vínculo com a realidade do paciente, o que lhes permitia partir do dia a dia das pessoas que aconselhava para receitar práticas preventivas com sabedoria, que vai além do aprendido na faculdade.
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