Mais do que nunca, precisamos ficar atentos e refletir sobre o que queremos para o futuro. Para isso, é essencial ter em mente que toda e qualquer ação tem consequências. Depois de um passo ou de um gesto, por mais insignificante que pareça isoladamente, vem outro passou ou gesto e logo se forma uma caminho. Tendemos a minimizar a importância de passos e gestos, por incapacidade ou medo que tentar antever o está à frente.
Conselho de jornalista: ao acompanhar as notícias, se pergunte: essa ação, essa frase, essa atitude...pode ter alguma significado maior? Que caminho ela indica? A repetição desse padrão pode desaguar em que tipo de cenário? E assim por diante...
Aos poucos, é possível juntar os pontos e desenhar uma figura maior.
Por exemplo: há quase um mês a jornalista Miriam Leitão publicou um importante artigo chamado "Entre o grotesco e o perigoso". Não é difícil relacionar os alertas que ela faz o que mais recentemente vem se observando no cenário do meio ambiente, para ficar em um exemplo.
Veja a íntegra do artigo:
"...
Pense no que o presidente Jair Bolsonaro fez e falou de grotesco em
200 dias. Você só conseguirá se lembrar de tudo se recorrer a uma
pesquisa. São tantas esquisitices diárias que a gente se esquece porque
precisa cuidar da vida.
O presidente investiu contra radar, cadeira de
criança, taxa cobrada em Noronha. Defendeu o trabalho infantil, disse
que, sim, beneficiará filho seu, postou notícia falsa, deu visibilidade a
uma cena escatológica no carnaval e tratou com escárnio valores
fundamentais. Qualquer lista que for feita aqui ficará incompleta. O
problema é que junto com atos e palavras sem noção há perigo real contra
pessoas e instituições.
Governar um país não é comandar um programa humorístico. As palavras
bizarro e tosco têm sido usadas com frequência, mas talvez devamos
pensar mais na palavra perigo. Enquanto renova o estoque da “última de
Bolsonaro”, a Presidência contrata o desastre em inúmeras áreas.
Os ataques ao meio ambiente são diários, a educação perdeu um
semestre, o Brasil se aproximou na ONU de países párias nos direitos da
mulher, o governo naturalizou a intolerância, suspendeu a fabricação de
remédios essenciais, escalou a liberação de agrotóxicos, estimulou o
preconceito, encurralou a cultura e esteve nas ruas com quem pediu
fechamento do Congresso e do Supremo.
Enquanto tudo isso acontecia, a economia continuou em crise, a queda
da atividade se aprofundou, o desemprego permaneceu alto, a confiança
caiu. Há relação entre uma coisa e outra. Até agora o que se tem é um
governo sem rumo em todas as áreas, inclusive na economia. Alguns
integrantes da equipe econômica se dedicam ao extremo a determinadas
ações, mas o governo tem apresentado miragens como se fossem projetos em
andamento.
A lista de não eventos está cheia. De concreto, houve dois
avanços em seis meses. A aprovação da reforma da Previdência em primeiro
turno na Câmara e o anúncio do acordo Mercosul-União Europeia. Na
Previdência, o parlamento avançou a despeito da balbúrdia do governo. No
acordo comercial há ainda uma longa estrada até virar realidade. Não se
pode contar ainda como conquista consolidada. A falta de fatos
concretos na administração Bolsonaro mantém nos agentes econômicos a
desconfiança em relação à retomada do crescimento. Os investidores da
economia real precisam de sinais mais sólidos.
Há perigos agudos. O ministro Ricardo Salles visitou madeireiros, foi
aplaudido por eles e os elogiou no mesmo local onde duas semanas antes
madeireiros haviam queimado um caminhão tanque do Ibama. Foi em Espigão
D'Oeste, Rondônia. O combustível abasteceria três helicópteros que
seriam usados para fiscalizar a retirada ilegal de madeira na Terra
Indígena Zoró. Não houve a operação. Criminosos queimaram patrimônio
público, retiraram madeira de terra protegida, ameaçaram um órgão do
governo, abortaram uma ação de fiscalização. A extração ilegal de
madeira é a principal suspeita. O ministro do Meio Ambiente deveria ter
sido mais cauteloso ao ir ao local se solidarizar com os madeireiros.
A lista dos perigos é tão extensa quanto a das tosquices. É
importante ficar atento. O governo Bolsonaro tem um padrão. Ele vai
encurralando e desmoralizando os órgãos públicos. O que há de comum
entre defensoria pública, Ibama, ICMbio, Itamaraty, Inpe, IBGE, Inep,
Fiocruz, tantos outros, é que o governo tem tentado impedir que eles
façam o seu trabalho.
De forma sutil ou ostensiva funcionários são
neutralizados. Os contribuintes pagam os salários dos servidores para
que eles exerçam funções específicas, e o governo tenta paralisar as
atividades. É desperdício de um recurso público valioso e caro: o
capital humano. Isso enfraquece o Estado nas funções que precisam ser
fortalecidas.
Há áreas mais vulneráveis porque viraram os primeiros alvos, mas
outros órgãos estão na mira. Para legitimar seus atos, o governo dirá
que a reação de funcionários é corporativismo, quando é a saudável
defesa da sua missão dentro do Estado. Depois de 200 dias não há mais
como se enganar. O governo não é apenas incompetente. Ele está criando
perigos reais para o país.
..."