Acontecimentos e períodos traumáticos - como desastres naturais, guerras e epidemias - costumam despertar sentimentos de empatia e solidariedade. Levam, por sua vez, a movimentos de união em torno de um propósito ou de um inimigo comum. São eventos capazes de mobilizar corações e mentes, como já atestamos em vários momentos da história.
Difícil imaginar quem queira se contrapor a essa reação quase natural do ser humano, certo? Pois sempre houve grupos dispostos a se contrapor a esse movimento, provenientes de diversos setores do espectro ideológico. A história também está repleta de exemplos assim. Porém, o que nos interessa mais de perto é o que vem acontecendo em relação à pandemia da Covid-19 em alguns países liderados nesse momento desafiador por políticos que negam a ciência e buscam dividir a sociedade, banalizando as mortes e sabotando o esforço coletivo capaz de salvar vidas.
Comentaristas políticos são capazes de apontar inúmeros razões e interesses por trás desse tipo de atitude. Acredito que um aspecto, no entanto, tem sido deixado de lado: o medo da solidariedade.
O discurso divisionista busca neutralizar a solidariedade, a empatia, a união de esforços em favor do bem comum por temer seus efeitos sobre a sociedade. Mais especificamente, para evitar a percepção de que a convergência, ainda que em momentos específicos, é possível e desejável.
Para que aposta nos extremos, para quem depende da negação do outro para afirmar sua identidade, para quem se alimenta do ódio e da criação de inimigos, para quem não aceita o contraditório e tem como objetivo a eliminação dos adversários, qualquer vetor de convergência é assustador, por ser potencialmente fatal.
Infelizmente, caímos na armadilha divisionista e não fomos capazes, enquanto sociedade, nem mesmo de expressar em uníssono a solidariedade com todos os que perderam familiares e amigos. Difícil não pensar que o trauma tem de ser ainda mais profundo e abrangente para que possamos construir algum tipo de convergência mais ampla do que os diversos segmentos em que nos fragmentamos.

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