Não é de hoje que me incomodo com o excesso de erudição, representado
para mim na tendência de algumas pessoas de se encherem de conhecimento
e, apesar disso, não serem capazes de viver com plenitude a experiência
proporcionada pelos sentidos. É o caso dos especialistas em vinho que
parecem ter esquecido que, para um sujeito comum, beber algo
simplesmente gostoso na companhia de amigos ainda é o mais importante.
Ou de quem busca entendimentos racionais e definitivos para a arte (em
qualquer de suas expressões) e não consegue se deixar levar pela emoção
espontânea, genuína e aparentemente desmotivada.
Agora encontrei guarida para meus pensamentos no livro Variações
sobre o Prazer (Editora Planeta), de Rubem Alves, pedagogo, cronista,
ensaísta e outras tantas coisas. Por meio da obra de Santo Agostinho,
Nietzsche, Marx e Babette (isso mesmo, a cozinheira de A Festa de
Babette), o autor trata da necessidade de viver com sabedoria, que ele
define como a arte de degustar a vida. Para isso, propõe, é preciso se
libertar de uma infinidade de "coisas tolas e mesquinhas", entre elas o
academicismo, o conhecimento que se encerra nos limites rígidos do
formalismo.
Em entrevista recente a O Estado de S. Paulo, Rubem Alves fala
de sua decisão de trocar os saberes (conhecimento formal) pelos
"sabores", o saber com gosto, alegria e prazer. "Precisei, primeiro,
libertar-me das regras do discurso acadêmico. E isso aconteceu não por
uma decisão pensada, mas pela minha experiência com a minha filha
pequena", afirma.
Por isso mesmo, a criança ocupa papel central no pensamento de
Rubem Alves. A criança e a seriedade que demonstra no ato de brincar
(conceito que traz de Nietzsche), sua curiosidade, elemento essencial
para o aprendizado com prazer, e sua capacidade de enxergar a vida com
uma imensa e constante provocação.
Dito tudo isso, Rubem Alves não despreza a importância do
conhecimento. Ele é ferramenta, é o que dá a cada um competência para
buscar a sabedoria. A ciência é um desses instrumentos. Mas ele alerta,
também em entrevistas, que muitos cientistas não têm nada de sábios. A
receita parece vir mesmo de Babette: "O que cozinhar? Essa decisão
inicial exige um conhecimento que não se encontra em livros. A
cozinheira tem de ser uma adivinha: precisa conhecer o desejo de quem
vai comer", escreve o autor em seu delicioso livro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário