quarta-feira, 6 de junho de 2012

O rei e eu



Precisei de uns anos a mais de idade e muitos fios de cabelo a menos para assumir desavergonhadamente que gosto das canções de Roberto Carlos. Nem é necessário dizer que assisti ao show de seus 50 anos de carreira no Maracanã, sábado, pela TV. E, é óbvio, me emocionei.

Como muita gente da minha geração - acho que a maioria, mesmo -, cresci ouvindo Roberto Carlos. Ele está lá nas memórias de infância em vários momentos e de várias formas: no toca-discos (LPs, para quem não se lembra), no Fantástico, na voz de outros cantores e cantoras, como Maria Bethânia.

Na faculdade, porém, cursando jornalismo na USP, ainda em meio ao clima das Diretas-Já, o negócio era ouvir o que estivesse à esquerda, como Chico Buarque e Milton Nascimento. Muita coisa levava, então, o carimbo de "brega" ou, pior, "alienante".

A reconciliação veio ali pelo final da década de 1990, mais ou menos na época do lançamento do Roberto Carlos: Acústico MTV. O álbum foi lançado em 2001 e, apesar de não ter alcançado grande penetração entre os fãs tradicionais do cantor, foi muito bem recebido pela crítica especializada, além de servir bem à tentativa de aproximá-lo novamente do público jovem.

Nessa época, eu já era capaz de comprar briga com quem negasse que "Detalhes" é uma obra-prima. Buscava argumentos sólidos para defender o "rei", mas ainda estava um pouco distante da melhor experiência em relação a suas músicas; era algo predominantemente racional.

Apenas recentemente criei com Roberto Carlos um diálogo mais emocional e, portanto, mais intenso, ao ponto de tomar a liberdade de fazer minhas as palavras dele. Acho que é assim mesmo: para aproveitar o que há de bom nesse cantor e compositor tão popular é preciso deixar os preconceitos da juventude para trás. E não só: é preciso estar com os dois pés na vida adulta, ter muitas vezes a cabeça cheia de problemas, saber bem o que é uma alegria triste e já ter encontrado essa paz infinita do depois.

É claro que, volta e meia, levo a pecha de brega. Tudo bem. Nessas horas, não há como não lembrar os versos de Fernando Pessoa, que disse para quem quisesse ouvir que todas as cartas de amor são ridículas: "Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas".

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