segunda-feira, 15 de julho de 2019
Uma ideia puxa outra
Para quem ficar curioso sobre o nome deste blog, republico aqui o texto da minha coluna no jornal Destak que explica um pouco...
Ainda me surpreendo com a forma como, de vez em quando, ideias cruzam meu caminho, quase ao mesmo tempo, e parecem ser partes de um só recado. A aparente coincidência pode ser fruto da atenção redobrada a que me habituei por conta da responsabilidade de escrever aqui semanalmente. Ou não, vai saber.
Recentemente, por exemplo, encontrei em um artigo sobre gestão de empresas e inovação uma constatação interessante: a vida da maioria das pessoas é determinada por poucos acontecimentos. Na maior parte do tempo, seja no trabalho seja nas relações pessoais, nada acontece. Melhor assim. Não tem coração ou estrutura psíquica que aguente um sucessão ininterrupta de fatos de grande magnitude.
Dias depois, deparei com palavras (brilhantes) de Guimarães Rosa que complementavam a ideia (um tanto prosaica, é verdade) do artigo sobre gestão: "Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo". Está no conto "O Espelho", que faz parte do livro Primeira Estórias.
Pronto, formava-se uma ideia maior, digna de alguma reflexão. Na superfície, as águas são geralmente calmas, o que nos permite navegar com segurança no dia a dia. É nas profundezas (mais ou menos misteriosas, dependendo da forma como se encara a vida) que se formam os eventos determinantes e que, mais cedo ou mais tarde, acabam vindo à tona. O milagre a que se refere o escritor mineiro está, provavelmente na possibilidade do inesperado, do imprevisto. Faz sentido? Não apenas faz muito sentido, acredito, como pode levar a mudanças importantes de atitude no cotidiano que muitos acusam de tedioso. A ausência de acontecimentos, geralmente motivo de ansiedade e impaciência, passa a ser vista de outra forma, bem diferente, quando se considera a possibilidade de os acontecimentos simplesmente não estarem ao alcance da visão ou do controle que inadvertidamente ainda almejamos.
Paciência é a palavra certa para a dinâmica que brota dessas duas ideias associadas. Paciência, aliás, que não se confunde com resignação ou paralisia. Mas essa é outra história. Uma ideia puxa outra, mas o espaço da coluna é limitado.
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